sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

23 - Porcaria de dia

Já era tarde e não conseguia dormir. Havia mudado diversas vezes de posição meu corpo estava um caco, implorando por descanso, porém minha mente continuava a mil, não conseguia desligá-la. Vesti uma roupa e apesar da forte dor de cabeça fui dar uma olhadinha rápida nas minhas páginas das redes sociais, não acreditei quando vi que havia uma mensagem do Fausto ali, que cara de pau! Qual o problema dele? Exclui e o bloqueei. A única coisa que salvou ali foi quando vi a foto do Clark como sugestão de amizade, assim que a solicitação foi feita ele aceitou do outro lado, então o Superman estava virando Batman? Ele não dorme? - Deve estar sentindo-se tão perturbado quanto eu.



A claridade do monitor me fez perceber o quanto minha cabeça latejava, desliguei tudo e  voltei pro meu quarto. Finalmente consegui dormir, porém não muito, ainda era muito cedo, estava com uma baita dor de cabeça,minha boca ressecada e uma fome que parecia que estava dias sem comer, abri a geladeira e me deparei com um bolo de chocolate, e, quer saber, que se dane as calorias, dieta e tudo mais, dizem que chocolate faz bem pra muita coisa, - só que não tendo tanto açúcar envolvido -, mas quem sabe aqui eu encontro minha salvação. De noite me acabo de tanto correr na esteira para compensar isso.



Peguei um copo de suco de laranja e tomei dois comprimidos para dor de cabeça e voltei para a cama, hoje é meu dia de folga então eu dormiria mais um pouco ou iria ficar com olheiras horríveis, jamais me permitiria ficar assim. Felizmente o cansaço prevaleceu e dormi como uma pedra, acordei quase na hora do almoço.



Apesar do dia de "folga" não posso deixar de ficar atenta ao meu celular, sempre tenho que verificar minhas mensagens, para uns serve como um moderno aparelho para conversas bobas, no entanto pra mim é uma preciosa ferramenta de trabalho. - Duas mensagens do Fausto - Que irritante! Nem ao menos me dei ao trabalho de ler, exclui e antes de guardar o aparelho o bloqueei no celular também. Pronto, agora sim.



Não sei se ficar a tarde inteira em casa seria uma boa ideia, além de ficar parada me faz parecer uma inútil quando eu estou trabalhando no hospital eu consigo me desligar do mundo e me dedicar somente em ajudar as pessoas que precisam de mim, lá eu realmente me sinto bem. - Peguei meu protetor solar fato 50, passei no corpo e fui pra piscina, embora tentasse afastar o Fausto do meu pensamento, não conseguia deixar de pensar como fui imprudente ao me relacionar com um  homem comprometido, jurei a mim mesma que não deixaria que isso me acontecesse novamente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

22- Sacudida

 - Melhor eu voltar logo. Se eu demorar pode dar margem às más interpretações depois.
- Tudo bem... - Pausei. - Seja lá qual for a solução que encontre, pense em você em primeiro lugar, ok? Não quero te ver mal.
Eu queria dizer muita coisa, dar muitos conselhos, mas ele nunca foi bom em me ouvir e nem eu ouviria uma caçula desmiolada.

Para completar o dia, esbarramos na loira aguada só de toalha quando levava o Clark até a porta. Descobri que trabalham juntos. Pesadelo. Mas fiquei feliz em ver que ela ficou envergonhada de verdade com a cena. A taradona devia respeitar o meu irmão. Amém!

Quando estava novamente sozinha em meu quarto a minha única vontade era de pegar o celular e perguntar o que diabos estava acontecendo para Gabriela, mas fazer isso entregaria o desabafo do meu irmão. Então, hora de me distrair. Olhei-me no espelho e reparei no que vestia. Por alguma razão maluca eu tinha colocado aquele blazer preto e não tinha tirado. Mas não estava com paciência para troca-troca.

Coloquei uns trocados e documentos nos bolsos e desci as escadas. Diva e Valentine conversavam no sofá.
- Ei, vocês duas. - Chamei quase como uma ordem.
As duas me olharam curiosas. Reparei como estavam vestidas e esperei que não fossem fazer caso com isso.

- Peguem seus documentos e venham comigo. Vamos beber e dançar.
As duas continuaram me olhando, agora mais surpresas que curiosas.
- Alguém aqui já parece ter bebido todas, mas eu que não vou perder a diversão. Pego o que preciso em um segundo. - Diva respondeu já sumindo pelas escadas.
Notei o leve pânico nos olhos da Valentine.
- Valentine, você vai. Por favor. Não me deixe sozinha com essa provável psicopata. Vou esperar as duas lá fora.

21- Voltando a realidade


Voltando a realidade senti lágrimas em meu rosto. Dei um sorriso. Sabia que de algum modo estava orgulhando meus pais. No outro dia, quando cheguei do trabalho, recebi uma ligação da minha tia, ela me chamou para passar uns dias na casa dela. Não deu muitos detalhes, mas disse que estava com alguns problemas financeiros com a casa e pensava em mudar para outro lugar. Precisava da minha ajuda. Aceitei ajuda-la.


 Quando cheguei na casa de minha tia no outro dia de manhã, ela me recebeu com alegria. - Vi que ela tinha embalado a maioria das coisas em caixas.
- Para onde vai mudar?
- Pensei em morar com a minha irmã Amélia.
- Com a tia Amélia? Mas ela não se dá muito bem com você.
- Eu sei, mas não tenho muitas opções.
- E ela mora um pouco longe. Deve ter outro jeito.
- Posso alugar essa casa e com o dinheiro alugar outro lugar, mas não sei por onde começar a procurar. – Fiquei pensando.
 

- Vamos para a cidade onde moro, você fica lá na casa até encontrarmos um lugar para você.
- Não sei se é uma boa ideia. Não quero invadir seu espaço assim.
- Não tem problema, eu converso com as meninas e vai dar tudo certo.
- Tudo bem, vou aceitar, mas qualquer coisa voltamos ao plano inicial.
- Combinado então. 


Ajudei ela a terminar de empacotar as coisas. Liguei para a Juh a noite e conversei sobre minha tia, ela não viu problema e se prontificou a ajudar também na procura pela casa. Pedi que avisasse a Diva só por precaução.
Nessa mesma noite viajamos para a cidade onde eu estava morando. Ela trouxe apenas uma mala, depois que achássemos uma casa mandaríamos vir o resto das coisas. Chegamos na casa de madrugada. Subi para o meu quarto com minha tia.


Insisti para que ela ficasse em meu quarto e arrumaria um colchão para dormir na sala. Por enquanto me contentaria com um cochilo no sofá. No outro dia, fiz algo simples para o café da manhã com os restos que achei na geladeira, parece que ninguém se lembrou de dar uma passada no mercado.


20- Ponta do iceberg

Meu irmão já estava no meu quarto e a sua expressão estava me matando. Eu tinha esperado até o momento em que fosse mais adequado para perguntar.
- Aconteceu alguma coisa?
- Sei lá... Não ando muito bem. - Respondeu.
Ele detestava dramas, por isso eu sabia que estava pior do que dizia. Afinal, ele tinha ido me procurar; em raríssimos momentos ele fez isso.


- O trabalho está muito puxado? - Tentei incentivá-lo a falar o que estava acontecendo.
Olhou-me nos olhos, decidindo se me contava ou não.
- Tem sido mais complicado com a Gabriela. - Começou.
- Como assim?
Suspirou pesaroso. - Não entendo muito bem. Não sei mais se ela faz de propósito ou se nem percebe.


Esperei que ele continuasse.
- Não estava tão ruim assim há um tempo. Mas depois que você saiu lá de casa, parece que ela só quer saber de trabalhar. De uma forma irritante. Mesmo nas poucas horas que temos juntos ela só trabalha. Parece que estou sendo infantil e egoísta falando assim, mas não estou, sei bem o que estou falando. Sempre que combinamos algo quando chega no dia passa em branco.


- Já tentou conversar com ela?
Olhou-me novamente, como se a resposta fosse óbvia.
- Nas poucas vezes que tentei falar alguma coisa ela se irritou comigo e as coisas só pioraram entre a gente. - Passou a mão nervosamente na testa - Hoje eu tinha preparado algo romântico pra gente e adivinha? No final das contas eu estava me desculpando com ela por não ser compreensivo.
Clark fez uma cara engraçada, mas tentei não rir.
- Tem mais coisa, mas prefiro não falar. - Respirou fundo - Eu tenho pensado seriamente em terminar. Qual o sentido de se sentir só num relacionamento?


O desespero me pegou. Eles dois separados: NÃO! NUNCA! Se qualquer um os visse juntos sonharia em ter algo como eles tinham. Conflito é normal, não é? Ainda mais com tantos anos juntos. Eu não podia mostrar que estava surtando ou ele sairia dali com a mesma facilidade que chegou.
- Não consigo imaginar vocês separados...
Ele pareceu a ponto de chorar. Deus, tudo tem limite. Se ele chorasse ali na minha frente eu partiria a Gabriela ao meio não importasse o quanto a amava... eu sempre amaria Clark infinitamente mais.
- Quando penso no futuro... - Começou - Também não consigo imaginar a minha vida sem ela. E não só por ela. Tem nossas famílias, nossos amigos... E amo todos eles também. Não quero perder tudo isso. Mas quando penso no agora...
Não foi necessário que ele completasse a frase.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

19 - Até nunca mais Dr. Fausto

"Apenas mais um dia de trabalho" - foi o que pensei ao sair de casa hoje - até a hora que eu me virei na sala dos médicos e dei de cara com o Fausto.
- Oi - Ele disse, como se nada tivesse acontecido e esboçando um sorriso presunçoso - Vim te convidar para sair hoje a noite. - Sabia muito bem a "saída" que ele queria.
- Eu não posso, nem hoje e nem nunca mais, não com você. Agora preciso voltar ao trabalho, com licença.



Realmente minha intenção era voltar ao trabalho, mas ele impediu que eu passasse. 
- Espera, você não vai me deixar falando sozinho, precisamos conversar.
- Sabe querido, eu preciso mesmo é fazer o meu trabalho então é melhor sair da minha frente ou eu passo por cima, estão precisando de mim - me esforcei ao máximo para me manter tranquila.
- Diva meu amor, espera, minha mulher precisava de repouso era uma gravidez de risco para ela e o bebê. O obstetra recomendou um lugar sossegado, estava muito nervosa com Pré-eclâmpsia e ela estava desconfiada sobre minhas ausências em casa, - "meu amor" foi exatamente ai que ele fez perder totalmente meu auto controle. 



- Seu amor um caramba, seu imbecil, nunca mais me chame assim, me esquece tá bom?! Não quero saber de você, seus filhos e seja mais quem for - E fui sincera ao pronunciar cada palavra - Eu nem sabia que a mulher dele estava grávida. Quanto mais eu não sabia sobre ele? Quanto eu fui idiota em me relacionar com um homem assim? 
- Não acredito em você, não acredito que esqueceu tudo que passamos juntos.
- E eu não acredito que está sendo tão patético, não esqueci, só acordei e estou vendo a burrada que fiz na minha vida, agora vai embora. 



- Alguém pode me explicar o que exatamente está acontecendo por aqui? Se não estou enganado seu turno começou à quarenta minutos atrás - O Clark falou olhando feio para mim. - As pessoas conseguem ouvir sua voz no corredor Diva e não é preciso se esforçarem muito para escutar cada palavra, acredite. 
- Desculpe Dr. Clark - sentia meu rosto quente de vergonha por ele ter ouvido e de raiva  do Fausto ter vindo me abordar durante meu expediente. - Ele já está de saída.
- E você Dr. Fausto, sua esposa está esperando na recepção, tem sorte por ser eu e não ela a vir te procurar.  - O Clark olhou tão feio pra ele quanto pra mim, não precisou mais uma única palavra, virei as costas e sai, pra mim esse assunto é pagina virada. 



Sai caminhando novamente como já era de costume, mas virei sentido oposto, hoje não estou disposta a fazer nada, nem ir para casa, não sabia exatamente para onde ir então apenas sentei no banco de um parque que um dia tinha visto, mas nunca parei. Para me sentir pior só faltava eu ficar jogando migalhas para pombos enquanto ficava ali sentada. Espero não estar aparentando tão ridícula como me sinto. Desperdicei mais de um ano da minha divina vida em um relacionamento que nunca daria certo. Fiquei perdida em pensamentos por um bom tempo até estar cansada o suficiente para só chegar em casa, tomar um banho, deitar e dormir até o dia seguinte.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

18- De volta ao presente


Balancei a cabeça tentando manter a minha mente no presente. Gustavo estava encarando nossas mãos juntas sobre a cama. Retirei a minha mão e seus olhos foram de encontro aos meus. No mesmo instante desviou seu olhar e ficou ansioso. Acho que deixei um sorriso escapar, porque eu estava mesmo contente em reencontrar os trejeitos do Gustavo.


- Bem, acho que vou deixar minhas fotos para outro dia. Talvez você mesmo tire. Seria muito legal. - Comentei.
- Combinado. - Respondeu sorrindo.
- Pode me passar o seu número?
Sua expressão ficou confusa.


- Celular. - Expliquei.
- Não tenho...
- Ah... - E fiquei imaginando que era bem a cara dele realmente não ter um.
- Mas você pode ligar aqui no estúdio se precisar de alguma coisa.
Despedimos-nos. Quando deixei o estúdio senti uma pontada de medo. Como se Gustavo fosse desaparecer novamente. Respirei fundo. Eu voltaria e teria paciência como tive anos atrás.


Em casa parecia estar sozinha o que eu até preferia. Não sabia direito o que falar com as outras duas e a Diva, com aquela cara de esnobe, conseguia me irritar sem fazer absolutamente nada. Troquei de roupa e decidia entre ficar em casa ou visitar o meu irmão quando o celular tocou.



- Juh? - Reconheci a voz do meu irmão antes de verificar o nome na telinha.
- A maravilhosa.
Quando ele não riu, fiquei preocupada.
- Posso passar aí pra gente conversar? - Perguntou.
- Claro.

domingo, 10 de janeiro de 2016

17- Devaneios do Passado (Parte 2)


Fiz a festa à noite, estava me divertindo bastante com meus amigos, quando já era quase de madrugada, um policial chegou. Gelei achando que seria presa ou meus pais notificados, mas foi bem pior ele trazia uma notícia. A de que meus pais tinham sofrido um acidente e morrido.
 

Me tranquei no quarto e fiquei ali deitada na cama por várias horas. Ignorei todas as batidas na porta. Me sentia tão culpada por não ter tratado meus pais melhor e até por não estar junto com eles naquela viagem. 


 Minha tia chegou. Ficaria ali comigo por um tempo, depois de tudo certo com a papelada da adoção me levaria para sua cidade. Não fui ao enterro dos meus pais, não conseguiria vê-los mortos. Ela tentou me consolar, mas eu me sentia muito mal.


 Sai correndo e fui para o cemitério. Por muitos dias eu sempre fugia para lá à noite e voltava no outro dia com o cabelo cheio de folhas secas. Preocupada minha tia me levou a um psicólogo, mas ele disse que era normal e que desse tempo ao tempo que tudo passaria.


Viajamos para sua cidade e por alguns meses continuei com meu comportamento rebelde de não querer comer, nem sair de casa e à noite tentava fugir para ir ao cemitério mesmo sabendo que meus pais não estavam ali. Emagreci bastante. Comecei a estudar em um colégio novo, mas minhas notas eram péssimas. Meses tinham se passado desde a morte dos meus pais. Em um dia chuvoso, eu estava muito irritada, que comecei a chorar, demorei a conseguir e quando as lágrimas começaram a cair não conseguia parar.


Tinha uma caixa no sótão com coisas dos meus pais, fui até lá dar uma olhada, e achei o caderninho de receitas da minha mãe, fiquei o olhando e pensando nos momentos bons que vivi com meus pais, isso foi me acalmando. Resolvi que daria orgulho a eles, mesmo que não estivessem mais comigo.