terça-feira, 12 de janeiro de 2016

19 - Até nunca mais Dr. Fausto

"Apenas mais um dia de trabalho" - foi o que pensei ao sair de casa hoje - até a hora que eu me virei na sala dos médicos e dei de cara com o Fausto.
- Oi - Ele disse, como se nada tivesse acontecido e esboçando um sorriso presunçoso - Vim te convidar para sair hoje a noite. - Sabia muito bem a "saída" que ele queria.
- Eu não posso, nem hoje e nem nunca mais, não com você. Agora preciso voltar ao trabalho, com licença.



Realmente minha intenção era voltar ao trabalho, mas ele impediu que eu passasse. 
- Espera, você não vai me deixar falando sozinho, precisamos conversar.
- Sabe querido, eu preciso mesmo é fazer o meu trabalho então é melhor sair da minha frente ou eu passo por cima, estão precisando de mim - me esforcei ao máximo para me manter tranquila.
- Diva meu amor, espera, minha mulher precisava de repouso era uma gravidez de risco para ela e o bebê. O obstetra recomendou um lugar sossegado, estava muito nervosa com Pré-eclâmpsia e ela estava desconfiada sobre minhas ausências em casa, - "meu amor" foi exatamente ai que ele fez perder totalmente meu auto controle. 



- Seu amor um caramba, seu imbecil, nunca mais me chame assim, me esquece tá bom?! Não quero saber de você, seus filhos e seja mais quem for - E fui sincera ao pronunciar cada palavra - Eu nem sabia que a mulher dele estava grávida. Quanto mais eu não sabia sobre ele? Quanto eu fui idiota em me relacionar com um homem assim? 
- Não acredito em você, não acredito que esqueceu tudo que passamos juntos.
- E eu não acredito que está sendo tão patético, não esqueci, só acordei e estou vendo a burrada que fiz na minha vida, agora vai embora. 



- Alguém pode me explicar o que exatamente está acontecendo por aqui? Se não estou enganado seu turno começou à quarenta minutos atrás - O Clark falou olhando feio para mim. - As pessoas conseguem ouvir sua voz no corredor Diva e não é preciso se esforçarem muito para escutar cada palavra, acredite. 
- Desculpe Dr. Clark - sentia meu rosto quente de vergonha por ele ter ouvido e de raiva  do Fausto ter vindo me abordar durante meu expediente. - Ele já está de saída.
- E você Dr. Fausto, sua esposa está esperando na recepção, tem sorte por ser eu e não ela a vir te procurar.  - O Clark olhou tão feio pra ele quanto pra mim, não precisou mais uma única palavra, virei as costas e sai, pra mim esse assunto é pagina virada. 



Sai caminhando novamente como já era de costume, mas virei sentido oposto, hoje não estou disposta a fazer nada, nem ir para casa, não sabia exatamente para onde ir então apenas sentei no banco de um parque que um dia tinha visto, mas nunca parei. Para me sentir pior só faltava eu ficar jogando migalhas para pombos enquanto ficava ali sentada. Espero não estar aparentando tão ridícula como me sinto. Desperdicei mais de um ano da minha divina vida em um relacionamento que nunca daria certo. Fiquei perdida em pensamentos por um bom tempo até estar cansada o suficiente para só chegar em casa, tomar um banho, deitar e dormir até o dia seguinte.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

18- De volta ao presente


Balancei a cabeça tentando manter a minha mente no presente. Gustavo estava encarando nossas mãos juntas sobre a cama. Retirei a minha mão e seus olhos foram de encontro aos meus. No mesmo instante desviou seu olhar e ficou ansioso. Acho que deixei um sorriso escapar, porque eu estava mesmo contente em reencontrar os trejeitos do Gustavo.


- Bem, acho que vou deixar minhas fotos para outro dia. Talvez você mesmo tire. Seria muito legal. - Comentei.
- Combinado. - Respondeu sorrindo.
- Pode me passar o seu número?
Sua expressão ficou confusa.


- Celular. - Expliquei.
- Não tenho...
- Ah... - E fiquei imaginando que era bem a cara dele realmente não ter um.
- Mas você pode ligar aqui no estúdio se precisar de alguma coisa.
Despedimos-nos. Quando deixei o estúdio senti uma pontada de medo. Como se Gustavo fosse desaparecer novamente. Respirei fundo. Eu voltaria e teria paciência como tive anos atrás.


Em casa parecia estar sozinha o que eu até preferia. Não sabia direito o que falar com as outras duas e a Diva, com aquela cara de esnobe, conseguia me irritar sem fazer absolutamente nada. Troquei de roupa e decidia entre ficar em casa ou visitar o meu irmão quando o celular tocou.



- Juh? - Reconheci a voz do meu irmão antes de verificar o nome na telinha.
- A maravilhosa.
Quando ele não riu, fiquei preocupada.
- Posso passar aí pra gente conversar? - Perguntou.
- Claro.

domingo, 10 de janeiro de 2016

17- Devaneios do Passado (Parte 2)


Fiz a festa à noite, estava me divertindo bastante com meus amigos, quando já era quase de madrugada, um policial chegou. Gelei achando que seria presa ou meus pais notificados, mas foi bem pior ele trazia uma notícia. A de que meus pais tinham sofrido um acidente e morrido.
 

Me tranquei no quarto e fiquei ali deitada na cama por várias horas. Ignorei todas as batidas na porta. Me sentia tão culpada por não ter tratado meus pais melhor e até por não estar junto com eles naquela viagem. 


 Minha tia chegou. Ficaria ali comigo por um tempo, depois de tudo certo com a papelada da adoção me levaria para sua cidade. Não fui ao enterro dos meus pais, não conseguiria vê-los mortos. Ela tentou me consolar, mas eu me sentia muito mal.


 Sai correndo e fui para o cemitério. Por muitos dias eu sempre fugia para lá à noite e voltava no outro dia com o cabelo cheio de folhas secas. Preocupada minha tia me levou a um psicólogo, mas ele disse que era normal e que desse tempo ao tempo que tudo passaria.


Viajamos para sua cidade e por alguns meses continuei com meu comportamento rebelde de não querer comer, nem sair de casa e à noite tentava fugir para ir ao cemitério mesmo sabendo que meus pais não estavam ali. Emagreci bastante. Comecei a estudar em um colégio novo, mas minhas notas eram péssimas. Meses tinham se passado desde a morte dos meus pais. Em um dia chuvoso, eu estava muito irritada, que comecei a chorar, demorei a conseguir e quando as lágrimas começaram a cair não conseguia parar.


Tinha uma caixa no sótão com coisas dos meus pais, fui até lá dar uma olhada, e achei o caderninho de receitas da minha mãe, fiquei o olhando e pensando nos momentos bons que vivi com meus pais, isso foi me acalmando. Resolvi que daria orgulho a eles, mesmo que não estivessem mais comigo.


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

16 - Voltando ao trabalho

É bom acordar pela manhã com o cheiro de bolos e tortas que a Valentina faz, pena que tudo que ela prepara são verdadeiras bombas calóricas, mesmo assim não custa perguntar o que ela estava preparando.
- Bolo de chocolate, estou testando uma nova receita, vai querer experimentar quando ficar pronto? - Ela perguntou sorrindo, sempre parece estar de bom humor.
- Não, obrigada. Estou surpresa por ninguém ainda te processou pelo excesso abusivo de calorias em suas receitas - disse sorrido - Mas se fizer algo mais saudável pode contar comigo pra ser sua cobaia - eu brinquei
- Da próxima vez então - ela sorriu novamente.



No trabalho vieram falar comigo, outros comentando pelos corredores sobre a volta do meu ex-chefe na cidade. - Se voltou ou não, porque e para que voltou não era mais do meu interesse, ainda estava engasgada com o modo que ele me dispensou, deixei o pensamento sobre ele de lado e voltei ao trabalho. E se ouvisse mais alguém falando sobre isso seria capaz de esganar um, já vi que seria um dia daqueles. O único chefe que eu tenho que me preocupar deve estar aproveitando o seu dia de folga.



Então só preciso mesmo terminar esse dia infeliz e ir às novas instalações do SPA aqui perto do trabalho, melhor do que isso é que posso ir caminhando até lá. Exercito meu corpo e minha mente também.
Quando cheguei a primeira vista fiquei impressionada, o lugar parece ser mesmo tudo aquilo que comentam, enfim, digno da minha maravilhosa e divina presença.



A aula estava perto de começar quando cheguei, mal deu tempo de me trocar, consegui mais uma vez esquecer de tudo e de todos e me dedicar exclusivamente à mim mesma. - Depois da aula  fui conhecer o andar superior, cruzando umas das portas, mesmo de costas vi e reconheci - é difícil não reconhecer - o Clark, ele estava meditando. Fui com passos suaves para não interromper, apenas para dar uma olhadinha.


Para a minha surpresa ele estava apenas sentado, de olhos fechados e uma expressão triste no rosto
- Oi, tudo bem com você? - arrisquei um assunto, se ele fingisse não  ouvir eu sairia sem incomodar, ele realmente não parecia bem, mas ele abriu os olhos e levantou.
- Oi Diva, tentei meditar, mas não consigo.
- Sabe primo - tentei descontrair usando a nossa nova recém descoberta de parentesco  - você pelo jeito está precisando é sair um pouco, curtir um agito. Vamos combinar algo qualquer dia desses - Não sabia se era certo ou não, mas não aguentei aquela carinha e puxei ele para um abraço, e, meu Senhor, que perfume é esse?!


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

15- Adolescência - Parte 1

- Oi, gatinha!
- Oi, gatinho!
Nos beijamos.
Eu ainda não acreditava que tinha um namorado. Já fazia pouco mais de um ano e eu ainda não acreditava. Asthor não era o tipo atlético; que parecia ser o tipo de todas as garotas da minha escola e talvez do mundo. E basicamente ele não era nenhum dos tipos que atraia as garotas. E eu nunca seria a louca a fazer propaganda do meu namorado perfeito e que eu achava lindo de morrer.

- Tudo certo para ir lá na sua casa mais tarde?
Repuxei os cantos da boca para baixo. - Desculpa, Thor, mas tenho um trabalho em dupla pra fazer. - Revirei os olhos lembrando da manhã trágica com a minha dupla muda.
Asthor imitou minha expressão. - Poxa, gata. - Pensou rapidamente. - Vou ficar com os garotos lá em casa, então. Quando acabar com o seu trabalho, passa lá.

Eu nunca tinha dado sorte com amizades femininas e para compensar o universo tinha me dado uma porção de amigos. Eu passava a maioria das minhas tardes jogando o que fosse com eles. Mas aquela tarde eu passaria com o Gustavo. Ou pelo menos foi o que imaginei. Já era quase sete da noite quando aceitei que ele realmente não iria aparecer.

No dia seguinte eu fui furiosa até onde ele estava na sala de aula.
- Eu passei a tarde inteira ontem te esperando!
Gustavo não falou nada.
- Está me ouvindo? Não foi nada legal da sua parte. Não tenho culpa de ser a sua dupla, ok? Eu só quero poder fazer esse trabalho e ter uma boa nota. Se você for continuar com esse comportamento vou ser obrigada a falar com o professor. - Desabafei.

Eu teria mesmo falado com o maldito professor, mas assim que terminei de falar o Gustavo empurrou um punhado de folhas na minha mão, pegou sua mochila e foi embora da aula, que por sinal ainda nem tinha começado. Era o nosso trabalho em dupla. Ele tinha feito tudo sozinho em uma tarde.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

14- Devaneios do Passado (Parte 1)



Passou duas semanas que recebi a visita de minha tia. Nesse tempo recebi algumas ligações suas trocando notícias.
No emprego prossegui gastando todas as minhas energias cozinhando. Um dia meu chefe chamou para conversamos, fiquei apreensiva com medo de que todo meu empenho não tenha sido suficiente.


O dono do restaurante estava o passando para outra pessoa e deixaria encaminhado meu treinamento para que eu assumisse o cargo de Chef do buffet. Sempre tinha algum evento de clientes no restaurante como reuniões, casamentos e comemorações de aniversários e eu seria responsável por manter tudo em ordem.


Estava feliz. Ao chegar em casa peguei o caderno de receitas que era da minha mãe e tinha guardado. Comecei a pensar em acontecimentos do passado. Eu era criança. Estava acima do peso de tanto que minha mãe que amava cozinhar me entupia de comida.


Ela sempre me chamava para ajudá-la a cozinhar e me ensinar receitas novas. Eu revirava os olhos e bufando a ajudava um pouco, mas logo que ela se distraia eu saia pelas portas do fundo para o quintal. Lá eu me sentia livre.


       Na adolescência comecei a sair com um grupo de amigos, meus pais tinham medo que eu me envolvesse com coisas erradas e preocupados tentavam impedir minhas saídas, mas eu sempre achava um jeito de escapar.



Quando eu tinha quinze anos eles me chamaram para uma viagem, iam visitar algum parente que estava doente, mas com a ideia de ter a casa só para mim e fazer uma festa para os meus amigos resolvei não ir. Eles não tinham escolha e deixaram que eu ficasse, mas mandariam alguém no outro dia para ficar comigo.


terça-feira, 5 de janeiro de 2016

13- Planos que mudam

 Sentei-me em sua cama, como se ainda tivéssemos tanta intimidade. Ele continuou em pé. Uma parte de mim ficou contente em saber que o Gustavo que eu conhecia ainda estava ali.
- Mora aqui há muito tempo? - Perguntei.
- Pouco mais de um ano.



Nos olhamos em silêncio. Esboucei falar; tantas perguntas que eu tinha. Preferi não perguntar. Ele sorriu como se entendesse. Bati no lado vazio da cama ao meu lado, convidando-o para sentar-se e assim ele fez. Olhei novamente seu quarto e tentei imaginar que vida ele levava.



- Você trabalha com o Paulo? - Achei um assunto.
Gustavo ficou nitidamente tímido - Ele trabalha para mim.
Não escondi meu espanto; não era o meu forte esconder minhas emoções.



- Sempre imaginei que você fosse virar um escritor. Que um dia desses passaria por uma vitrine de livros e veria o seu nome em um deles.
- É... Cheguei a escrever um livro. Mas acabou não dando certo. - Pausou - Agora tiro fotos.



Novamente o silêncio. Insegura, coloquei minha mão sobre a dele na cama. Deslizando meus dedos carinhosamente sobre seus dedos, minha mente foi para um tempo distante que até então mantive duramente em esquecimento.